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dos sonhos

Acordou e já não era a mesma que tinha adormecido. 
Algo se perdera. Algo de essencial se esvanecera junto com o sonho da madrugada anterior. 
Ela não conseguia lembrar o que. Entregando-se aquela sensação, põe-se a procurar pelo quarto algo que não sabia haver perdido. 
Para um pouco e pensa. Estivera aquela sensação sempre ali ou realmente nascera na noite anterior? 
Sentira-se alguma vez completa? 
Talvez naquele fatídico sonho conseguira olhar-se inteira num espelho qualquer, onde qualquer outra realidade que não a sua lhe sorrira e, deslumbrada, agarrara-se aquele reflexo e tomara-o como seu. 
Mas não seria aquilo que sentia agora o certo?
Não seria a insatisfação e o vazio companheiros constantes?
Senta-se lentamente na cama, procura o isqueiro e algum outro tipo de alívio. 
Expira. 
É cada sonho estranho que temos...

Day After


 
Objetos, pessoas, fenômenos naturais, animais, todos parecem ter – e têm!-, um fim, um motivo de ser. Nunca me livrei e temo nunca me livrar da sensação de não ser daqui, de não pertencer a lugar algum: vila ou grande centro. O meu desejo constante, latente, é fugir. Fugir do que conquistei, fugir do que conheço, fugir do que pode me prender ainda mais a este lugar.

Meu desejo é estar em fuga contínua. Sem parar jamais. Passar pela vida das pessoas como a brisa a beira-mar que no passar trás carícia, calor e certo conforto, e que é belo por saber que será breve e que não se pode segurar com as mãos. Passar, passar e passar. É a minha vez de passar. É a minha vez de querer. Estive observando partirem de mim para nunca mais a minha vida inteira: espectadora da vida fora de mim e do mundo. Sempre assisti. Agora quero ir! 

Abro e abro meus olhos e só consigo olhar para dentro. De que outro mundo fui exilada? Porque aqui? Porque este planeta com pessoas estranhas que eu compreendo com um distanciamento pedante, mas onde ninguém – ninguém! -, consegue entender o que me passa no intimo? 
Sinto-me sozinha. Infinitamente sozinha e incompreendida. Faço-me banal e fútil para ser compreendida. Ou calo. Mas tenho calado a vida inteira! Desejo fútil de encontrar o que nunca perdi, mas que ainda assim sei que me falta. Não adianta procurar. O nunca tive não está aqui.

Um dia, meu Deus, um dia encontrarei o que não sei que perdi?
Eu realmente detesto esse negocio de ano novo. Que baboseira! Fugi de todos os telefonemas, não suportaria falar com ninguém. Todos me deixam doente, poucas exceções. Se pudesse não veria mais ninguém. Mas logo em seguida me sinto doente e autista por pensar assim. Pego o telefone para ligar para alguém, mas me exaspera a insistência das pessoas em nos encontrar e desisto. 
Parem de me desejar feliz 2011! Parece para mim mau agouro. É como se fosse tão certo que seria um ano infeliz que todos tenham que se desejar fervorosamente um bom ano, como um pêsame ao contrario. ­
A sensação de que estou definhando me toma novamente. Penso em procurar algum psicólogo, psicanalista, psiquiatra, psiqualquer coisa que possa me dizer que não sou louca, mas vai que eles decidam o contrario?
Meu pé pulsa com a dorzinha filha da puta que não vai embora. Amaldiçoo o salto alto, me dou um beliscão mental por ser estupida por continuar em cima do skate com o pé machucado e ademais tento ignorar a dorzinha filha da puta que não vai embora.