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vozes da floresta

As árvores falam numa língua só delas.
Uma língua rangida que conta de amores-sementes soprados para longe,
De famílias arrancadas por aqueles que não têm raízes,
De membros amputados pela mão dolorosa do tempo.

As árvores falam.
Elas falam comigo quando passeio por florestas frias e escuras.
Elas choram para mim quando me sento perto delas e passo longo tempo a contemplá-las.
Elas choram.
Choram pelos seus dias contados na Terra.
Choram porque ninguém mais as cultua como outrora.
Elas lamentam porque lembram que um dia animais vinham repousar sob sua sombra, elas me perguntam por eles, mas o que eu posso dizer?

Elas sofrem.
Sofrem porque sentem o lamento de todo o planeta.
Elas me dizem: Você não entente, você não tem raízes. Você pode enterrar seus pés no chão, mas nada vai frutificar de você e ninguém virá repousar sob sua sombra.

Eu digo que a entendo.
Eu também choro meus amores soprados para longe.
Eu também sofro pela família que foi arrancada de mim,
E eu também tive sentimentos amputados de mim para nunca mais.
Eu digo que eu também tenho meus dias contados na Terra – todos nós,
E que um dia eu também vou virar raiz.

As árvores se lamentam agora por mim e por elas e por todos nós.
Eu sofro e elas sofrem e os grilos cantam toda uma sinfonia para nós.
E o vento vem e sopra nos meus cabelos e nas suas folhas
E nós nos calamos
Estranhamente reconfortadas.

gotejamento



Passageira estranha sentada ao lado meu, és feliz?
Este brilho inatural no teu dedo é a tua felicidade ou a tua ruína?
Pra onde olhas que nada pareces ver?
És no fundo tão miserável quanto eu?
É a tua vida tão vazia quanto a minha?
Onde está o furo por onde vaza a minha felicidade?
Ajuda-me a remendá-lo, doce estranha com coque no alto da cabeça;
Ajuda-me a fugir de mim,
A escapar inteira por esse furo invisível de onde me sinto gotejar lentamente.

E tu, triste mulher com grandes cicatrizes,
És mais feliz ou menos feliz?
Tivesse o teu corpo tantas cicatrizes quanto minha alma,
Conseguirias ainda sorrir?

Por que todos olham pela janela?
O que há de novo para ver?
O mundo é o mesmo.
Falsa ilusão de que tudo muda.
O mundo é o mundo desde o inicio do mundo.
Nós somos mera poeira soprados eternidade adentro.
E mesmo entre nós tudo é sempre igual, alheio e distante.
Não há nunca nada de novo
Sequer a vontade ancestral da busca pelo desconhecido é nova.
Triste entediante ciclo de repetição a que fomos destinados.

Tédio, tédio.
Cansaço, querido cansaço, acalenta meu agitado espirito.
Noite escura, esconde minha dor.
Motorista apressado, por que corres tanto?
Pra onde vais assim tão vorazmente?
Não vês que tua pressa é inútil?
Que obedecemos todos a um ritmo maior?

Sentir. Que falta faz sentir.
Não quero que goteje também o derradeiro sentimento que me resta
Não deixe vazar também minha dor.
Sem ela não me sentirei mais sequer humana
Serei mero fardo de órgãos e músculos e ossos e consciência.
Não quero ser reduzida a isso.

Mas é muito tarde.
Não sinto dor, nem felicidades, nem amores.
Fui embora de mim aos poucos, nem percebi;
Só ficou essa vontade anestesiada
Que não é nem de vida nem é de morte.
E nem eu sei do que é.



Mais um dia. 
Nada fiz. 
Nada criei. 
Não me tornei mais célebre, nem aprendi nada novo.
Mais um dia que durmo com a alma menos minha e cada vez mais longe,
floresta adentro dos meus sonhos.
Realidade, sonho, o quê é o quê? 
Quem nomeou de vida isto que aconteceu à minha volta, hoje? 
Quem condenou nossos sonhos a ser somente sonhados, quem fez isso? 
Quem me sentenciou a escolher isto ou o vazio?  
Por Deus, quem?